ARTIGO: O QUE É E COMO SE DESENVOLVE A ATIVIDADE DE NEGOCIAÇÃO NAS AÇÕES DE SEGURANÇA PUBLICA E PRIVADA 
QUAL A ORIGEM E A DEFINIÇÃO DE NEGOCIAÇÃO NO CAMPO DA SEGURANÇA E SUA ABRANGÊNCIA ?
Major Leonardo Sant´anna - Especial para o site da Dimensão
* (Contéudo não visualizável na íntegra por usuários de Internet Explorer 7.0)
Iniciada em 1972, por intermédio de esforços particulares de membros do Departamento de Polícia de Nova Iorque e tendo, a partir de 1973 até os dias atuais, desenvolvimento técnico-metodológico incorporado pelo FBI, a técnica de negociação é hoje um potente instrumento para a solução de eventos que migram de pequenos conflitos domésticos a abissais contendas internacionais.
Mas o que realmente é a negociação? Por que ela deve ter tanta importância em um evento crítico? Será que qualquer pessoa pode ser um negociador durante uma ocorrência? Vejamos estes e outros aspectos no decorrer desta matéria.
A negociação no campo da segurança deve ser compreendida como o processo utilizado pelas instituições onde, de forma sistemática e multidisciplinar, pretende-se chegar à solução de um evento crítico que envolva pessoas pacificamente, aplicando-se técnicas verbais e estratégias lingüísticas e psicológicas específicas, de acordo com as circunstâncias peculiares de cada evento.
Esta definição precisa ter amplitude tal que abranja os segmentos público e privado. É mandatório para essas instituições privadas compreender quais erros devem ser evitados e que comportamentos não devem ser adotados quando da ocorrência destes episódios de risco em instalações e locais que estejam sob sua responsabilidade.
A INTERAÇÃO COM OUTRAS MISSÕES E AS CORPORAÇÕES E AS AÇÕES DE NEGOCIAÇÃO
Pelo mundo, o sucesso de milhares de casos envolvendo reféns, agressores barricados, pessoas que estejam tentando o suicídio e quem esteja por curto espaço de tempo em poder de seqüestradores, se deve à ação de negociadores.
Durante as ações de negociação temos ainda personagens que não estão em nada ligados a atividades de segurança, mas corroboram com alguns momentos específicos. Tratamos, nomeadamente, dos funcionários das companhias de água e esgoto, de telefonia e de companhias elétricas. O cessar desses serviços públicos, na maioria das vezes quando abordamos edificações residenciais e comerciais, compõem uma das formas de auxílio no processo de negociação.
Alguns administradores policiais, possuidores de poder de decisão no cenário imediato de crises em andamento, talvez não consigam compreender determinados comportamentos de seus negociadores durante estes episódios.
Digamos, a bem da verdade, que no Brasil parte do romantismo encontrado na perfeição de atividades tem certa recenticidade. A ausência de vaidades entre gerentes de crise, chefes de equipes táticas e chefes de equipes de negociação nem sempre foi um ingrediente presente na receita das instituições policiais.
As corporações mais amadurecidas já conseguiram compreender, mesmo que com erros próprios, pelo menos três circunstâncias imprescindíveis, a saber:
- O investimento material e técnico nas equipes de negociação é tão importante para o sucesso das ações de preservação da vida quanto os equipamentos e armamentos adquiridos para os componentes de equipes táticas;
- A formação de profissionais de negociação precisa ser seguida do aperfeiçoamento e do treinamento contínuo deste especialista, da mesma forma que deve ocorrer em qualquer outro segmento das ações de segurança;
- Componentes de equipes regulares de ação policial também devem conhecer o que fazem as equipes que lidam com eventos críticos;
Apesar do que foi dito, algumas instituições, públicas e privadas, ainda não compreenderam que a timidez na utilização, tanto de ensinamentos básicos a profissionais que precisem lidar com eventos críticos como de negociadores profissionais, tem como conseqüência um início e um desfecho equivocado – senão trágico - de ocorrências desta natureza.
A SELEÇÃO E O TREINAMENTO DAS EQUIPES DE NEGOCIAÇÃO
A figura do negociador atuando sozinho é um mito. Exemplos no mundo inteiro, e incluam-se casos na capital federal, demonstram a condição de risco existente nesta infeliz e pouco profissional medida.
Geralmente uma equipe de negociação é composta por, pelo menos, três integrantes. O mínimo necessário para a realização deste trabalho determina a presença de um negociador principal e um terceiro negociador. Em havendo mais negociadores, deveremos ter profissionais atuando como chefe da equipe (de preferência o mais experiente e de maior ascensão hierárquica) e até auxiliando a equipe de coleta de dados.
Os administradores de polícia, por simples questões de aspecto técnico, de segurança e de confiabilidade em suas instituições, necessitam compreender que a seleção, organização, treinamento e equipamento de equipes de negociação é de fundamental importância para o sucesso desses grupos.
A seleção de líderes de equipes de negociação é a primeira consideração que deve ser feita. Profissionais como esses, tanto quanto os líderes de equipes táticas, são elementos primordiais para a solução das situações de risco que já mencionamos. Já os membros da equipe precisam ser pessoas com relativa experiência policial (um misto entre tempo na atividade e tarefas e colocações profissionais já desempenhadas).
Equipes que desejam ter sucesso não realizam menos que 05 treinamentos anuais, em média. Por não fazerem parte da equipe de negociadores, merecem tratamento especial os casos que envolvam um primeiro atendimento que tenha feito por policiais que não possuam treinamento específico. Para isso deve também haver um protocolo de ações e uma capacitação específica. Menos interesse não deve ser dado à capacitação dos policiais que estejam em posições funcionais vinculadas ao despacho de ocorrências e decisão de ações propostas a equipes especiais. A esses, cabe a missão de distinguir o momento em que o policial não treinado deve deixar de atuar e obriga-se a entrada em cena de elementos especializados.
QUEM DEVE E QUEM NÃO DEVE NEGOCIAR?
É comum que pessoas que entendem estar indiretamente envolvidas na ocorrência ou que, por qualquer que seja o motivo, tomem conhecimento ou estejam na área do evento crítico, queiram ser alçados imediatamente à figura de negociador. Os parentes, esposas, maridos, líderes religiosos, advogados, membros do ministério público, sociólogos, psicólogos ou psiquiatras são as figuras sociais mais comuns nesta porção da atividade.
O que faz com que estes indivíduos entendam serem eles os mais indicadas para negociar? Isso ocorre porque as características funcionais, profissionais ou conhecimentos particulares dessas pessoas confundem-se com as técnicas de negociação policial. Não devemos, sob qualquer pretexto, rejeitar estes conhecimentos uma vez que todos estes participantes são uma importante fonte de informação; mas também não podemos esquecer que outras medidas devem fazer parte da pauta de missões em ações dessa natureza, tais como: a) controle emocional, b) conhecimento de técnicas e estratégias de negociação, c) conhecimento de formas de interação com a equipe tática, d) procedimentos específicos de tratamento dos dados de inteligência, e) a forma adequada de inserir o time tático no ambiente, no caso de compreender que esta é a única solução para o caso e, por fim, f) a preservação da ordem pública é uma atribuição legal, legítima e exclusivo da polícia.
Desta forma, e entre diversas outras justificativas, fica patente que apenas policiais devem negociar.
A ATIVIDADE DE NEGOCIAÇÃO E A IMPRENSA
Existe certa complexidade neste assunto, pois precisamos ligá-lo ao processo de contenção e controle dos indivíduos que estejam próximos a crise.
Os gerentes de crise devem ter em mente que os repórteres têm um trabalho a fazer e que, desde que bem orientado, é um fator de grande auxílio à segurança pública. Porém, entenda-se paralelamente que este trabalho será feito com ou sem a ajuda das instituições policiais. A informação precisa e regular elimina a necessidade de coletá-la clandestinamente e caso isso não ocorra, o policial se preocupará não apenas com o caso a ser resolvido, mas também com a maneira furtiva que será utilizada para que a imprensa angarie os dados para produção da matéria.
CONCLUSÃO
O trabalho da segurança tem sido uma vitrine social que é contemplada por todos os ângulos. O julgamento positivo ou negativo do que consta no interior desta vitrine é fundamentado nas reações e estratégias que são colocadas em prática pela polícia durante eventos críticos, onde o agressor social tem em suas mãos a maioria e as melhores cartas naquele momento de risco.
Independente das ações proativas e das metodologias que visam à antecipação do crime, uma parcela das ações de segurança ainda permanece no campo da reação. E neste instante, mais uma vez, percebemos que os investimentos na capacitação e nas ferramentas de trabalho para negociação surgem como um extraordinário caminho para que se chegue ao máximo do que pode ser dado pelas instituições de segurança à população. E esta população sempre merecerá o melhor daqueles que se propõem a protegê-la “mesmo com o risco da própria vida”.
O major Leonardo José Rodrigues Sant´anna, bacharel em Segurança Pública, é chefe da coordenação Pedagógica da Academia de Polícia Militar do Distrito Federal e já atuou como consultor da ONU para treinamentos policiais, quando preparou as tropas especiais de fronteira do Timor Leste.